O segredo sueco para manter o equilíbrio entre trabalho e vida privada

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Ola Ericson - Sweden Image Bank

Minha amiga sueca, Maria Pékar está de malas prontas para a ensolarada Califórnia nos Estados Unidos quando estávamos conversando sobre o mercado de trabalho na Suécia. Assim como muitos que vivem na Escandinávia, ela, o marido e os dois filhos do casal procuram fugir da escuridão que assombra os meses de inverno na gélida Suécia sempre que possível. Somente em 2016, eles voaram para fora de Estocolmo mais de seis vezes.

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Uma dessas viagens aconteceu exatamente uma semana após Linus ter sido admitido em uma empresa, em 2015. “Nós tínhamos essa viagem para a Turquia marcada e coincidiu exatamente com minha mudança de emprego. Mas as férias estavam previstas, e eu expliquei isso para o meu novo chefe”, conta Linus garantindo que, em nenhum momento, o novo empregador demonstrou descontentamento com a situação.

Na Suécia, os trabalhadores têm direito a cinco semanas ou 25 dias úteis de férias por ano. Os empregadores podem decidir, em comum acordo com os funcionários, como o período de descanso será dividido.

Quatro dessas semanas podem ser usufruídas durante os meses de verão. Por aqui é comum que muitas empresas fechem as portas durante os meses mais quentes do ano, já que os empregados provavelmente esterão em alguma praia paradisíaca recarregando as doses de vitamina D e colocando o bronzeado em dia.

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A realidade dos trabalhadores suecos está distante de parecer com a dos brasileiros, obrigados a trabalhar um ano inteiro para ter direito às merecidas férias.

Leia também: Será que a jornada de trabalho de seis horas na Suécia funciona?

A situação é inconcebível para Maria. “Eu não seria capaz de trabalhar assim. As pessoas devem se sentir obrigadas a trabalhar na mesma empresa e, dessa forma, não tendem a trabalhar felizes. Ir para uma nova empresa significaria recomeçar tudo e não tirar férias por um mais de um ano”, comenta. Para a economista, a sagrada pausa de cinco semanas é fundamental para o próprio rendimento no trabalho.

O renomado proprietário do Make Up Instituet de Estocolmo, Shaul Moalem, optou por dar férias coletivas aos funcionários duas vezes ao ano. “Descansamos três semanas no verão e duas em dezembro, entre o natal e o ano-novo. Dessa forma, eu também consigo me desligar do trabalho”, comenta.

De viagem marcada para Israel, o empresário diz não ver vantagem em tirar férias e permanecer com as portas da empresa abertas. “Caso aconteça algum imprevisto, meus funcionários vão me contactar. Isso não é descanso verdadeiro”. Para Shaul, o mais viável é que todos descansem ao mesmo tempo e voltem revigorados para os respectivos postos de trabalho. “Caso seja necessário, estou aberto a negociar férias extras”, explica.

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Se um dos meus funcionários precisar, eu certamente ofereço a oportunidade de ele tirar mais alguns dias de descanso em épocas do ano diferentes da prevista no nosso calendário de férias coletivas”, esclarece.

Para o psicólogo clínico pós-graduado em Psicoterapia Analítica Ivan Costa, um modelo ideal de fé rias é o que respeita a necessidade particular dos funcionários, uma vez que, para o especialista, a forma de descansar é muito subjetiva.

“O código do trabalho foi criado em defesa das relações de trabalho e para garantir direitos ao trabalhador. A regra das férias foi pensada para um benefício coletivo. Então ela não avalia necessidades individuais”, comenta. Segundo o psicólogo, o ditado confuciano que diz “Escolha um trabalho que você ame e nunca terá que trabalhar um dia em sua vida” é completamente aplicável a esse caso.

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Foto pixabay.com

Afinal, a produtividade está relacionada com outros fatores, como as condições de trabalho. “Se a pessoa não está satisfeita com a função que exerce ou com a empresa onde trabalha, as férias podem virar apenas válvula de escape, uma fuga daquilo que ela não gosta de fazer. Como consequência, o indivíduo volta das férias sem vontade de trabalhar”, enfatiza. Para a Diretora de Gestão da Associação Brasileira de Recursos Humanos (ABRH), Marise Drumond, independentemente de ser uma questão trabalhista, as férias simbolizam a manutenção da saúde física, mental e da performance do indivíduo.

“Um profissional descansado, depois de um período de folga, volta com mais energia, bom humor e disposição. E isso resulta na maior produtividade. Inclusive, com o aparecimento da psicologia positiva nos Estados Unidos, vários estudos indicam que empresas que promovem o bem-estar e a qualidade de vida dos colaboradores são empresas que evoluem”, comenta. Marise considera a legislação brasileira coerente apenas para o primeiro ano de trabalho, período necessário para que o profissional novato se adapte à empresa e adquira amadurecimento.

“Já para os funcionários veteranos, entendo que deveria haver uma flexibilidade maior, pois a pressão no ambiente de trabalho ao longo do tempo, com metas cada vez mais difíceis de atingir, com certeza gera mais cansaço, fadiga e estresse. Esperar um ano para parar talvez seja prejudicial”, explica. Ela chama a atenção também para o estresse, a ansiedade e a depressão – males que podem surgir mediante a inexistência de pausas para o descanso.

E você, acha que esse equilíbrio entre trabalho e vida privada pode ser viável no Brasil?

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